quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Para Gostar de Ler... MÁRIO QUINTANA



A Bela e o Dragão
As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos...
Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA
DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete
agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de
boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão
te seguirá por toda parte como um cachorrinho...

[Mario Quintana; Sapato Florido, 1948]


Arte poética

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Este e o outro lado
Tenho uma grande curiosidade do Outro Lado.
(Que haverá do Outro Lado, meu Deus?)
Mas também não tenho muita pressa...
Porque neste nosso mundo há belas panteras, nuvens, mulheres belas,
Árvores de um verde assustadoramente ecológico!
E lá - onde tudo recomeça -
Talvez não chova nunca,
Para a gente poder ficar em casa
Com saudades daqui...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Um poema?
No mundo não há nada mais triste do que uma boneca morta...
Talvez porque sua mãezinha tenha morrido de parto!
Ou encontrar um vestido de noiva numa casa de penhores
Ou começar cheio de rimas quando se escreve em prosa
Ou não encontrar rimas quando se escreve em verso
(Também, quem me mandou escrever clássico?!)
Bendita seja a Isadora Duncan, que inventou o verso livre da dança!
Só não sei,
Mesmo,
O que eu queria dizer com tudo isso...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Virá bater à nossa porta?
Esse tropel de cascos na noite profunda
Me enche de espanto, amigo...
Pois agora não existem mais carros de tração animal.
É com certeza a morte no seu carro fantasma
Que anda a visitar seus doentes pela cidade..
Será ela? Virá acaso bater à nossa porta?
Mas os fantasmas não batem; eles atravessam tudo silenciosamente,
Como atravessam nossas vidas...
A morte é a coisa mais antiga do mundo
E sempre chega pontualmente na hora incerta...
Que importa, afinal?
É agora a única surpresa que nos resta!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O tamanho da gente
O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O tamanho do espaço
A medida do espaço somos nós, homens,
Baterias de cozinha e jazz-band,
Estrelas, pássaros, satélites perdidos,
Aquele cabide no recinto do meu quarto,
Com toda a minha preguiça dependurada nele...
O espaço, que seria dele sem nós?
Mas o que enche, mesmo, toda a sua infinitude
É o poema!
- por mais leve, mais breve, por mínimo que seja...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Catástrofe
O meu esporte único é a Luta corpo a corpo com o meu Anjo da
Guarda.
Lutamos tanto pelo que queremos
Que no final ficaremos redondamente mortos no chão,
Para maior alívio de Nosso Senhor,
Para sempre livre de nós dois!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Nos solenes banquetes
Nos solenes banquetes de próceres internacionais
- em especial sobre desarmamentos -
O aparte mais espontâneo
é o riso de prata de uma colherinha
Que por acaso tombou no chão!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Os psicanalistas, como o caso deles me preocupa.
Eles próprios sofrem de um dos mais terríveis complexos do mundo,
Que é o complexo dos complexos.
Ah, se a gente pudesse ter uma simples e amistosa conversa com eles,
Sem que descubram coisas por trás!
E se, por acaso,
Tombar um ovo choco no chão,
Por que hei de ser um maníaco homicida,
Um fabricante de anjinhos?!
Por que não vão eles inquirir sobre isso o próprio Acaso,
Que não sabe de nada...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Da Imparcialidade
O homem - eternamente escravo de suas paixões pessoais -
Ë absolutamente incapaz de imparcialidade.
Só Deus é imparcial.
Só Ele é que pode, por exemplo,
Abençoar, ao mesmo tempo,
As bandeiras de dois exércitos inimigos que vão entrar em luta...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Estranheza
Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum:
Não acreditamos muito uns nos outros...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O nome e as coisas
Para que estragar a simples existência das coisas com nomes
arbitrários?
Um gato não sabe que se chama gato
E Deus não sabe que se chama Deus
("Eu sou quem sou" - diz Ele no livro do Gênesis)
Eu sonho
Ë com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como deve ser a linguagem das plantas e dos animais!
Só de adjetivos, sem explicação alguma,
Mas com muito mais poesia...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Liberação
Que bom deveria ser o mundo antes do nascimento de Cristo
E da rainha Vitória!
A única esperança que nos resta é a desse novo século que aí vem,
Liberto, sem injunções de espécie alguma.

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Este nosso mundo
Sentiu Adão que alguém se aproximava silenciosamente
E lhe tapava os olhos com carinho!
"Adivinha quem é, meu queridinho?!"

Quem mais podia ser senão a sua doce, a sua querida Evinha?
Adão sorriu com aquela brincadeira.

Voltou a sorrir-se para ela... Mas não:

A voz que ouvira não era dela, mas a voz sinuosa da Serpente,
Que acabara de devorar a maçã e a própria Eva!
E desde então ele ficou sem companheira nem nada

E teve, até agora,
De fazer tudo pela própria vida
Neste mundo do Diabo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Madrigal
Tu és a matéria plástica de meus versos, querida...
Porque, afinal,
Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
Eu sempre fiz versos de ti!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



o Eterno Cristo
O povo adora e vive suspirando por um Messias,
Que o venha libertar de tudo no mundo,
Mas quando esse Dia Santo
Chega afinal,
Todos os seus crentes, cheios de espanto e medo,
A única coisa que conseguem fazer é apedrejá-lo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Bucólica

Na solidão da noite
uma vaca, uma abençoada
vaca
muge:
o seu mugido é um rio de veludo morno,
voz de mãe e de amante:
quente e cariciosa...
- à mesma voz que tu, antes de me abandonares,
Tinhas sempre comigo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Um novo Cântico dos Cânticos
Vamos compor, ó Bem-Amada, um novo Cântico dos Cânticos:

"Tu louvarás unicamente a ti!

Eu louvarei unicamente a mim!"

(É tão sincero quanto o outro, não achas?...)

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Reflexão para o dia de finados
Morrer, enfim, é realizar o sonho
que todas as crianças têm...
O motivo? Só elas sabem muito bem:
Fugir... fugir de casa!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



As despedidas

Nas despedidas
O mais doloroso é que
- tanto o que fica como o que vai embora -
Poem-se os dois a pensar:
"Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!"

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


As tias

Sempre estão nos acusando de alguma coisa,
Com o dedo em riste: "Meninos, não façam isto!
Não presta deixar os sapatos virados no chão com a sola para cima,
Nem nunca puxar dessa maneira as tranças da Adalgisa!"
No entanto não sabem
Que as crianças no fundo gostam disso
E que a violência é uma das formas mais deliciosas do amor...
A gente grande só tem ridículas briguinhas conjugais
Apenas para poderem se reconciliar depois!
Ai de nós, de nossa vida com elas...
As nossas intrometidas tias são eternas e de todos os sexos!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Os inconvenientes da perfeição

Corre no céu este boato que os próprios anjos me contaram:
Às vezes Deus, saturado da sua infinita perfeição,
Resolve trocar de lugar com o Diabo.
Resultado:
Sempre sai ganhando longe do Outro...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


São Jorge
Um dia um papa decretou que São Jorge jamais havia existido.

Meu Deus! a falta que nos faz São Jorge...

Se ninguém se atrever a montar no seu Cavalo Branco,

O Dragão Negro nos apanhará!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]




"A Gioconda"
Descobri o famoso mistério
Do teu sorriso, Gioconda...
Pensando bem,
É o mesmo sorriso que tem
Essa gente sempre de boca fechada
De tanta gente no mundo...
O que há nisso de profundo? É apenas
Porque já perderam todos os dentes!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]




Baudelaire

Baudelaire, fervoroso adepto e puxa-saco de Satã,
Meu Deus! era demais até...
Mas Deus esperou pacientemente que ele morresse
E, para vingar-se dele de uma vez por todas,
O mandou para o Reino dos Céus!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Antros noturnos
Há Anjos que costumam freqüentar esses antros noturnos que são os
sonhos dos humanos...
São eles que, na hora extrema, costumam interceder por nós...
Os outros são dedos-duros!
[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Quando eu me for
Quando eu me for, os caminhos continuarão andando...
E os meus sapatos também!
Porque os quartos, as casas que habitamos,
Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
Possuem igualmente os seus fantasmas próprios,
Para alucinarem as nossas noites de insônia!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Compensação

Na inocência da natureza

Todos têm a beleza do que eles próprios são.

Por isso é que os monstros
- por mais que eles assustem crianças e adultos -

Têm sempre os olhos azuis...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Hipóteses
Quando escrevo as minhas coisas é tudo no passado.
Parece até que já tenha morrido...
E daí?
Ou talvez seja a poesia, onde tudo não morre...
[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Deus tirou o mundo do nada.
Não havia nada mesmo...
Nem Deus!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O vento e eu
O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia...

Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



A música e a letra
Os pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo,

Eles é que vão sucessivamente improvisando

- um após outro -

A letra e a música dos ventos...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Os velhinhos

Como os velhinhos - quando uns bons velhinhos
São belos, apesar de tudo!
Decerto deve vir uma luz de dentro deles...
Que bem nos faz sua presença!
Cada um deles é o próprio avô
Daquele menininho que durante a vida inteira
Não conseguiu jamais morrer dentro de nós!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Diplomacia
Nunca perguntes que horas são perto de um defunto
(as almas não entendem essas coisas...)

E, perto de um crocodilo - cuidado!

- Jamais te refiras a bolsas e sapatos de senhora: eles são muito suscetíveis...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Crenças

Seu Glicínio porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego.

É uma crença que ele traz da sua infância

Não o desiludas com teu vão saber,

Respeita-lhe os queridos enganos:

Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança

Tenha ela oito ou oitenta anos!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Perfil
Naqueles tempos,
Ele era tão inconstante de espírito e de coração,
Que seus olhos eram sempre da cor da gravata
Que estava usando na ocasião...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Para onde irão dar as belas cidades do sonho?
Não parecem muito diferentes das nossas...
Pois acabamos de encontrar na rua, jogando pelada,
Aqueles lindos negrinhos cor de ouro...
Mas eis que de repente cai uma chuva de pingos multicoloridos
E ficamos mascarados de tudo quanto é cor.
Não podemos deixar de rir...
Só nos assusta, querida, o vôo rasante dos pterodátilos
Que - não se sabe como - nos sobraram dos céus antediluvianos.
Mas lá vem vindo um diretamente contra nós
E ficamos agarrados como conchas,
Como as duas conchas de uma mesma ostra
- voluptuosamente única!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Medo
Há uma coisa arrastando-se misteriosamente pelo chão da noite.
Acendo a luz e some-se...
É que tem medo - é que ela própria tem um medo terrível
Do que será!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]
Nevoeiro

Sinto-me naquela antiga Londres
Onde eu quisera ter andado
Nos tempos de Sherlock - o Lógico
E de Oscar - o pobre Mágico...

Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Memória
Em nossa vida ainda ardem aqueles velhos, aqueles antigos lampiões
de esquina

Cuja luz não é bem a deste mundo...

Porque, na poesia, o tempo não existe!

Ou acontece tudo ao mesmo tempo...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Confissão

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Censo demográfico

Não sei por que diziam que uma humilde cidadezinha
Tinha, por exemplo, umas quinze mil almas...
Almas? Hoje, o que elas têm são quinze mil bocas,
Loucas de fome!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Noturno
De noite todos os meus pensamentos são escuros
E todas as palavras têm a letra "u"
Rude
Virtude
Cruzes!
Até mesmo, Bandeira, teu "sapo-cururu da beira do rio"!
Não me digam que o melhor é acender todas as luzes!
Odeio a luz elétrica e todas as luzes artificiais.
A gente repousa na escuridão como num ventre maternal.
E o melhor enredo para isso tudo
É me atirar de súbito num açude
Seco!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Os três reis magos

Um trouxe a mirra,
Outro o incenso,
Outro o ouro.
Mirra e incenso evaporaram-se
E, agora,
Ainda queres saber o que foi feito do ouro?
Mas tu não sabias?! O ouro também evapora-se...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Fim do mundo?

Um homem sozinho numa gare deserta
À espera de um trem que nunca vem.
Por fim, vai informar-se no guichê da estação.
Não encontra ninguém...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O amor eterno
Dante se enganou: Paolo e Francesca
Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo
Juntinhos e felizes!
Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino?
Um amor que jamais pudesse terminar...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Elegia

Esta noite eu sonhei que tinha morrido criança
E os que vieram ver o corpo do pobre menino
Apenas sentiram um cheiro evanescente de chocolate
E de balas de coco...
E uma colherinha morta no chão!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

Romance

Quando, ainda menino, briguei ainda uma vez para sempre com
Adalgisa
Não fui olhar a saída da missa de domingo,
Como era costume naqueles ingênuos e queridos tempos,
E fui passear pela rua da sua casa
Ver a placa da esquina
Despertar o costumeiro revôo dos pombos na calçada
Não esqueci nada, nada daquilo...
Tudo tão cheio da ausência dela!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Encontro mágico

Eis que encontro na rua uma das moças mais lindas do mundo.
Vestida simplesmente, parecia no entanto uma princesa
Um meigo olhar, um sorriso que parecia uma aurora dentro de nós.
Não pude, não pude mais e lhe indaguei de súbito:
"Como é teu nome, minha querida?"
E ela respondeu-me simplesmente: AUSÊNCIA.

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



A arte de viver
A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver...
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Briga em Família

Ontem - no outro lado da realidade -
Sonhei que Jesus estava discutindo violentamente com o Menino
Jesus.
Não ouvi nada, porque o mundo do sonho é silencioso.
(afinal é justo que haja outro mundo melhor do que este)
Não digo apenas que só Deus deve saber... Ele criou todas as coisas
Mas felizmente não sabe o que as coisas poderão fazer...
Tu podes negá-lo, dizer o diabo contra Ele e Ele te escutará!
E sorri infinitamente...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Lições da Infância

Vestido de roxo e todo cheio de equimoses,
Tombado sobre um joelho
O medo que me dava Nosso Senhor dos Passos
Aonde eu ia acender-Lhe uma vela.
Não, não sentia piedade alguma, mas apenas medo.
Só muito depois é que vim descobrir
que ele era o mesmo Menino
que na mesma igreja
nos sorria ao colo de Nossa Senhora!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Rock
O rock é o desespero,
Como se eles estivessem não apenas no fim de um século
Mas no fim do mundo e, por isso,
Berram em vez de cantar,
Pulam em vez de dançar,
Estupram-se em vez de simplesmente se amarem...
E fazem de tudo, tudo,
No seu suicídio coletivo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Inquietude
Esse olhar inquisitivo que me dirige às vezes nosso próprio cão...
Que quer ele saber que eu não sei responder?
Sou desse jeito... Vivo cercado de interrogações.
Dinheiro que eu tenha, como vou gastá-lo?
E como fazer para que não me esqueças?
(ou eu não te esqueça...)
Sinto-me assim, sem motivo algum,
Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem
camarões
Num velório sem defunto...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Os discos voadores

E que ingênuos esses autores de F. C. tão amados dos jovens -
Que consideram esses discos voadores que surgem por aí
Apenas como instrumentos de algum Super-Hitler qualquer
Para conquistar o Cosmos!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Um simples lugar-comum

Todos esses roubos, todos esses assassinatos vêm apenas da fome
Que conturba este nosso terrível mundo atual.
Ah, como seria bom se rebentasse uma nova Guerra Internacional!
Que fácil uma vida nova em um novo mundo
Para os que ficássemos sobrando do lado de cá!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


O visitante

Aquele morto voltou para assistir à primeira reunião familiar
E retirou-se agradecido
Ao ver que seus saudosos parentes estavam falando em outras coisas...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Achados e perdidos

Eu conduzo minha poesia como um burro-sem-rabo
Nesta minha Porto Alegre de incríveis subidas e descidas.
Suo como o Diabo
E desconfio
Que os meus melhores poemas terão caído pelo caminho...
Mas como saber quais são?!
Alguém por acaso os pegará do chão
E vai ficar pensando que o espantoso achado
Pertence a ele... unicamente a ele!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



É preciso algo que nos preocupe
Para acabar com a monotonia.
Briga com a sogra, duvida
De tua vida, de Deus, de tudo,
Das próprias coisas que melhores julgas,
Porque, na verdade,
Não há nada mais chato na vida
Do que um cachorro sem pulgas...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Batuque

Dentro da noite sinto-me às vezes pula-pulando ao som do batuque
Como se não tivesse nunca quebrado a minha perna esquerda...
E tudo vai fantasticamente como nesses desenhos animados
- salvo quando me sinto bobamente flutuando no espaço...
Ah! Mas não há nada mais fantástico
Do que esta minha simples mesinha de pinho
Onde sempre me confesso com divertida emoção!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



O espectador
Olhar a televisão
Sem prestar atenção,
Ver apenas figuras a moverem-se na tela
E só assim talvez terei alguma compreensão
Da nossa vida e do sentido dela...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Preto-e-branco

A nudez mais casta é a das belas negrinhas:
Elas parecem estar sempre vestidas com um maiô
De seda preta...
Só a nossa nudez é que é pornô.
Felizmente...
Mas nos enche de bíblica vergonha!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



Um dia...

Um dia o meu cavalo voltará sozinho
E virá sentar-se naquele mesmo café,
A ler, com as pernas cruzadas, o jornal do dia
- alheio inteiramente à espantação do mundo!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Amanhecer
O sol derrama, na calçada,
A sua bela, matinal urinada!

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


Orquestra
A coisa mais solitária do mundo é um solo de flauta
Em compensação a tua cabeça está cheia de borboletas estrídulas
Mas eu deixo tombar das minhas mãos o pandeiro de guizos
E, na verdade, o que eu tenho é uma alma de violoncelo
grave, profunda, triste...

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]


A coisa mais natural da vida é a morte;
À coisa mais absurda da vida é a própria vida.

[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]



I. DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

II. DO AMIGO

Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...

III. DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

IV. DA PREOCUPAÇÃO DE ESCREVER

Escrever... Mas por quê? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Sejá se sabe tudo o que se vai dizer!...

V. DAS BELAS FRASES

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacovios bem vestidos.

[Mario Quintana; Espelho Mágico, 1945]

VI. DO CUIDADO DA FORMA

Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!

VII. DA VOLUPTUOSIDADE

Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer...
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer...

VIII. DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

IX. DA INQUIETA ESPERANÇA

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dês o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório...

X. DA VIDA ASCÉTICA

Não foge ao mundo o verdadeiro asceta,
Pois em si mesmo tem seu próprio asilo.
E em meio à humana turba, arrebatada e inquieta,
Só ele é simples e tranqüilo.

XI. DAS CORCUNDAS

As costas de Polichinelo arrasas
Só porque fogem das comuns medidas?
Olha! quem sabe não serão as asas
De um Anjo, sob as vestes escondidas...

XII. DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis.., ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

XIII. DO BELO

Nada, no mundo, é, por si mesmo, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema...

XIV. DO MAL E DO BEM

Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos...
Já viste as flores que a mentira dá?

XV. DO MAU ESTILO

Todo o bem, todo o mal que eles te dizem, nada
Seria, se soubessem expressá-lo...
O ataque de uma borboleta agrada
Mais que todos os beijos de um cavalo.
[Mario Quintana; Espelho Mágico, 1945]

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