domingo, 7 de agosto de 2011

Literatura de Cordel

Literatura de Cordel - As proezas de João Grilo

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia.

[...]

João Grilo chegou na corte
Cumprimentou o sultão
Disse: pronto, senhor rei
(deu-lhe um aperto de mão)
Com calma e maneira doce
O sultão admirou-se
Da sua disposição.

[...]

- Eu tenho doze perguntas
Pra você me responder
No prazo de quinze dias
Escuta o que eu vou dizer
Veja lá como se arruma
É bastante faltar uma
Está condenado a morrer

[...]

O rei achou muita graça
Nada teve o que fazer
João Grilo ficou na corte
Com regozijo e prazer
Gozando um bom paladar
Foi comer sem trabalhar
Desta data até morrer.

E todas as questões do reino
Era João que deslindava
Qualquer pergunta difícil
Ele sempre decifrava
Julgamentos delicados
Problemas muito enrascados
O João Grilo desmanchava.

Certa vez chegou na corte
Um mendigo esfarrapado
Com uma mochila nas costas
Dois guardas de cada lado
Seu rosto cheio de mágoa
Os olhos vertendo água
Fazia pena o coitado.

Junto dele estava um duque
Que veio o denunciar
Dizendo que o mendigo
Na prisão ia morar
Por não pagar a despesa
Que fizera por afoiteza
Sem ninguém lhe convidar.

João Grilo disse ao mendigo:
E como é, pobretão
Que se faz uma despesa
Sem ter no bolso um tostão?
Me conte todo o passado
Depois de ter-lhe escutado
Lhe darei razão ou não.

Disse o mendigo: sou pobre
E fui pedir uma esmola
Na casa do senhor duque
E levei minha sacola
Quando cheguei na cozinha
Vi cozinhando galinha
Numa grande caçarola.

[...]

- O cozinheiro zangou-se
Chamou logo seu senhor
Dizendo que eu roubara
Da comida seu sabor
Só por eu ter colocado
Um taco de pão mirrado
Aproveitando o vapor.

[...]

João Grilo disse: está bom
Não precisa mais falar;
Então pergunto ao duque:
Quanto o homem vai pagar?
- Cinco coroas de prata
Ou paga ou vai pra chibata
Não lhe deve perdoar.

João Grilo tirou do bolso
A importância cobrada
Na mochila do mendigo
Ela foi depositada
E disse para o mendigo:
Balance a mochila, amigo
Pro duque ouvir a zoada.

O mendigo sem demora
Fez como o Grilo mandou
Pegou sua mochilinha
Com a prata e balançou
Sem compreender o truque
Bem no ouvido do duque
O dinheiro tilintou.

Disse o duque enfurecido:
Mas não recebi o meu;
Diz o Grilo: sim senhor
E foi isto o que valeu
Deixe de ser caloteiro
O tinido do dinheiro
O senhor já recebeu.

- Você diz que o mendigo
Por ter provado o vapor
Foi o mesmo que ter comido
Seu manjar e seu sabor
Pois também é verdadeiro
Que o tinir do dinheiro
Representa seu valor.

[...]

João Ferreira de Lima

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