domingo, 20 de março de 2011

COMO ENSINAR VALORES NA ESCOLA
Vicente Martins

Pelo menos quatro maneiras ou abordagens pedagógicas podem ser utilizadas para o desenvolvimento dos valores nos educandos: doutrinação dos valores; clarificação dos valores; julgamento dos valores; e narração dos valores.

A abordagem pela doutrinação de valores é a mais antiga das maneiras de educar os alunos em valores, através da qual a escola educa ou tenta educar o caráter dos alunos. Tal abordagem se dá através da disciplina; do bom exemplo dos professores; do currículo que enfatiza mais as condutas do que os raciocínios, destacando as virtudes do patriotismo, do trabalho, da honestidade, do altruísmo e da coragem. A escola, através de seus professores, imprime valores no espírito dos seus educandos, através de recomendações do que considera correto, justo e ideal para a prática de valores.

A doutrinação de valores é inspirada nas práticas de formação religiosa, uma vez que procura incutir ou inculcar nos educandos valores, crenças e atitudes particulares, com o objetivo de que não aceitem quaisquer outros, julgados errados quando seguem outra doutrina. No Brasil, durante os períodos colonial e imperial, as escolas tradicionais ensinavam valores a seus educandos, fazendo-os repetir ou decorar a moral de narrativas ou fábulas européias. Muitos docentes chegavam a utilizar a palmatória para educar em valores, corrigindo os alunos com castigo severo, quando não assimilavam ou memorizavam bem as lições de moral. No meio familiar, cabia principalmente à figura do pai o papel de doutrinador, de modo que era ele também o principal educador do filho em valores, valendo-se, não poucas vezes, da dureza da palavra ou da punição exemplar.

O segundo modo de desenvolver a educação em valores é através da clarificação desses valores. Consiste em os professores, num clima de não-diretividade e de neutralidade, ajudarem os alunos a clarificar, assumir e pôr em prática os seus próprios valores.

Na prática escolar, o professor pode utilizar uma atividade simples, como a votação de valores, que se dá, por exemplo, através da atividade de leitura, em voz alta, de uma a uma, de questões que começam pela expressão “Quantos de vocês... (a) .... pensam que há momentos em que a cola se justifica?, (b) .... lêem em primeiro lugar, no jornal de domingo, a página de novelas e fofocas?, (c) ... acham a prática do aborto um direito da mulher?, (d) ... aprovam relações sexuais antes do casamento?”, e os alunos respondem levantando as mãos. Um aspecto positivo dessa abordagem é que ela ajuda os alunos a pensarem sobre valores e fazerem a ligação entre os valores que defendem (“A prática da cola é errada.”) e a ação desenvolvida ou a desenvolver (“O que tenho feito para combater a prática da cola clandestina?”). Um aspecto negativo é que a referida abordagem pode vir a confundir questões triviais (fofocas) com questões éticas (o aborto, ato praticado contra o direito à vida) importantes. Para o trabalho com esta metodologia, caberá ao professor, desde logo, estabelecer a diferença entre o que o aluno gosta de fazer (colar durante a avaliação escolar, por exemplo) e o que deve fazer (respeitar o regimento da escola ou as condições estabelecidas pelo professor para a aplicação de uma prova).

Há outro modo de desenvolver os valores na escola: é através da abordagem pela opinião ou pelo julgamento dos valores. Consiste em a escola acentuar os componentes cognitivos da moralidade. A abordagem pelo julgamento de valores defende que existem princípios universais (Tolerância Recíproca, Liberdade, Solidariedade e Justiça, o mais forte deles) que constituem os critérios da avaliação moral ou do juízo de valor.

Os alunos, na abordagem pelo julgamento de valores, são vistos pelos professores como sujeitos da educação em valores, uma vez que constroem tais princípios ativamente e regulam a sua ação de acordo com os princípios.

Essa abordagem propõe que a educação moral se centre na discussão de dilemas morais em contexto de sala de aula, sem levar em conta, no entanto, as diferenças de sexo, de raça, de classe social e de cultura, concentrando-se, unicamente, na atribuição de significados que as pessoas dão às suas experiências ou vivências morais.

Uma atividade baseada na abordagem pelo julgamento de valores, que pode ser desenvolvida pelo professor, inclusive, com atividades de expressão oral e escrita, é pedir que os alunos desenvolvam um texto, oral ou por escrito, sobre o que pensam da concepção de justiça em frases do tipo: “A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem” (Epicuro).

O quarto modo de ensinar os valores na escola baseia-se nas narrativas ou nas expressões orais ou escritas dos educandos. Essa abordagem centra-se nas histórias pessoais ou coletivas, nas quais os alunos contam, através de textos orais ou escritos, em sala de aula, seus conflitos e suas escolhas morais. A abordagem pela narração envolve as três dimensões da educação em valores: a cognição, a emoção e a motivação.

A abordagem pela narração ou narrativa reconhece que, na diversidade cultural, é comum o ato de contar histórias por parte das pessoas com o objetivo de transmitir valores de gerações mais velhas para as mais novas. Assim, o papel das histórias e das narrativas, ou seja, das práticas de leitura de textos escolares, nomeadamente os textos literários, é muito importante na formação dos valores nos alunos.

A narrativa desempenha um papel na vida e na dimensão moral das pessoas em particular. Os nossos pensamentos e as nossas ações estão estruturados em práticas discursivas. A abordagem pela narração pode ocorrer num simples ato de perguntar em sala de aula: “Vocês poderiam me contar o que aconteceu nas últimas eleições no Brasil, no seu Estado, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, na sua casa?”. As pessoas atribuirão significados às experiências de vida, representadas sob a forma de narrativa. Nessa abordagem, as pessoas desenvolvem-se moralmente, tornando-se autores das suas histórias morais, e aprenderão, de forma consciente, as lições morais em que contam as suas experiências.

A abordagem pela narração centra-se nas experiências reais das pessoas, nos seus conflitos e nas escolhas pessoais. As dimensões da educação em valores podem ser bem evidenciadas à medida que os professores, em sala de aula, após a leitura de um artigo de opinião, por exemplo, sobre a legalização ou não do aborto, extraído do jornal diário, levantam perguntas para os alunos do tipo: “O que vocês pensam sobre essas idéias do autor deste artigo?” (dimensão cognitiva); “O que você sentiu ao ler este artigo?” (dimensão emotiva); e “O que vocês pretendem fazer após a leitura deste texto?” (dimensão atitudinal). Portanto, a abordagem favorece o pensar, o sentir e o fazer sobre temas transversais, extraídos do cotidiano dos alunos.

O desenvolvimento da educação em valores pela narração propõe que os professores convidem os seus alunos a contarem as suas próprias histórias morais ou a ouvir, ler e discutir as histórias dos demais colegas.

A utilização da literatura escolar e o estudo do perfil dos seus heróis e das suas heroínas podem constituir uma boa metodologia de desenvolvimento dos valores, desde que acompanhados de reflexões críticas baseadas em princípios éticos universais, constituindo tais valores, por excelência, parâmetros para avaliação moral ou juízo de valor, isto é, para o que é justo, tolerável, digno, possível, certo, errado ou diferente.

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