domingo, 20 de março de 2011

Educação

Só não previu quem planejou
Tania Zagury

Não precisamos de reformas de ensino no Brasil, menos ainda daquelas que alteram apenas nomenclaturas ou que pseudo-adotam o que, de repente, alguém determinou que é a nova "fórmula mágica" de ensinar. Precisamos avaliar o que ocorre nas escolas, ouvindo cada professor sobre as dificuldades e as necessidades, para então buscar saná-las.
Ninguém fala em outra coisa: o Brasil do século XXI não sabe ler ou não entende o que mal lê. Todos estão pasmos. Menos os professores, posso afirmar, os quais nos últimos 30 anos de mudanças na área educacional, lastimavelmente, não foram chamados a dar o seu testemunho, nem lhes ouviram as dúvidas e as certezas. Quem está na frente de batalha teria dito: isso não vai dar certo... Algumas vezes, de fato, as secretarias de Educação e o MEC colhem opiniões dos docentes. Contudo, raramente esses dados essenciais são a base das decisões educacionais. E quem alfabetiza há muito sabe que não se conseguem bons resultados com o idealizado construtivismo (adotado no Brasil e já abandonado em muitos países). Bem que muitos tentaram, mesmo a contragosto. Não lhes foi dada oportunidade de escolha, em especial no ensino público.

Para quem não sabe, o método fônico, que começa a ser apresentado como "novidade", já se usava antes, quando comecei a lecionar. O professor escolhia a cartilha e ensinava a partir do que sabia fazer. Os professores que, da noite para o dia, passaram a alfabetizar nos moldes ideovisuais, preconizados por Emilia Ferreiro, fizeram-no determinados a acertar, ainda que não estivessem convictos de que era o melhor para seus alunos. Porque, apesar do tanto que se fala em gestão democrática, os docentes continuam sendo meros executores. Não precisamos de reformas de ensino no Brasil, menos ainda daquelas que alteram apenas nomenclaturas ou que pseudo-adotam o que, de repente, alguém determinou que é a nova "fórmula mágica" de ensinar. Precisamos avaliar o que ocorre nas escolas, ouvindo cada professor sobre as dificuldades e as necessidades, para então buscar saná-las. Precisamos respeitar quem faz, quem operacionaliza. O melhor método é o que funciona. Nossas crianças e nossos jovens precisam de resultados de verdade já.

Fomos alfabetizados pelo "be-a-bá" e, coisa estranha, sabemos ler! Aprendi, quando cursava o antigo Ensino Normal (há mais de 30 anos!!!), que a criança aprende do que lhe é próximo para o que é distante, do simples para o complexo, do concreto para o abstrato. Por isso, usávamos o método fônico, que atende a essas características. De repente, nos disseram que o que aprendêramos estava errado... Então, como é que nossos alunos aprendiam? Eu, e milhares de outros professores, já tínhamos alfabetizado tantos, e nossos alunos liam, podem acreditar. Mais: entendiam o que liam. E faziam contas e resolviam problemas. Só quem esteve todos esses anos em sala de aula sabe o que se sofre tentando conseguir o impossível. Porque só é possível bem utilizar o construtivismo em turmas muito pequenas, nas quais o professor faz um acompanhamento individual. A mudança, apenas metodológica, deixou o professor em sala de aula com os mesmos ínfimos recursos da escola pública e a pletora de alunos carentes de tudo. Sou a favor do progresso e da mudança, desde que alicerçados em estudos e acompanhamento sistemáticos, que os embasem. Tomam-se medidas caras e aleatórias: computadores para parte das escolas públicas, por exemplo. O computador chegou, mas os professores têm outras coisas para fazer - antes do caviar, o "feijão com arroz". Se tivessem ouvido os docentes, saberiam que precisavam mesmo era de "menos alunos nas turmas e mais horas de aula".

Outro grave baque na qualidade do ensino aconteceu com o endeusamento da escola não-diretiva, transplantada da psicanálise para a sala de aula. Corrigir o aluno passou a "dar trauma". Riscar em vermelho os erros, nem pensar. Provas revelaram-se intervenções ameaçadoras. Memorizar qualquer coisa tornou-se feio. Herança que o rogerianismo nos legou: não se ensina nada a ninguém. E o resultado aí está.

Além disso, hoje, cada problema social que surge vira tema transversal do currículo: educação sexual, cidadania, ética, educação para o trânsito, educação ambiental, etc. Tudo bem, mas deram condições ao professor para fazer tudo isso e - ainda - ensinar a ler, escrever e interpretar? O fracasso tinha de ocorrer. Era previsível. Com tantos encargos e uma metodologia que não podem executar, os professores precisariam, no mínimo, receber treinamento permanente antes de se executarem os novos modelos (e, é claro, salários incrementados na proporção das tarefas). O pior aconteceu depois: quando tudo já ia mal, adotou-se a progressão continuada e o ensino por ciclos - para dar vazão à demanda de matrículas, agravando terrivelmente a questão da qualidade.

A "moda" do momento é a "inclusão" de alunos com necessidades especiais. Ótimo. Politicamente corretíssimo. Mas a verdadeira inclusão deve começar pela melhoria da qualidade do ensino de toda a população. Precisamos deter o processo atual, em que o aluno termina o ensino fundamental - quando termina - quase tal como estava quando entrou. Esta é a verdadeira exclusão: de posse do seu diploma, mas com precária aprendizagem, o jovem, sobretudo o de classe social menos favorecida, que tanto precisa de trabalho, é ejetado do mercado de trabalho sem dó nem piedade. Afinal, até concurso para gari exige que se saiba ler e escrever direito!

Ouçamos quem executa. Eles nos dirão como evitar as tempestades do desencanto...

Tania Zagury é mestre em Educação e professora de Psicologia Educacional e Didática.

Fonte: Revista

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