domingo, 17 de abril de 2011

O primeiro beijo

Nasci em setembro de 1932 e se alguém quiser mandar um presente aceito. Pode mandar no dia 3. Porque essa tal de bestagem de não dizer a idade graças à vida, não tenho.

Ultimamente, dei pra pensar na vida e em como a gente programa o computador da existência, mas a vida não tem nada de máquina e muda o esquema.

Foi assim que, por causa de um esquema fora do compasso de repente, virei escritora. E ca estou eu, na frente da minha velha máquina, batendo com um dedo só, com o indicador da mão direita. Se eu soubesse, teria estudado datilografia, em vez de mímica ou escola de teatro. Se eu soubesse, pois é!

Vou começar minha carreira de contadora de mim com a história do primeiro beijo. Tem a ver como todo o resto, talvez até com essa minha louca e frenética doidice de escrever como quem se entrega à pesca da palavra exata.

A palavra, a música da palavra, essa paixão pelo muito que se pode dizer e calar, escrevendo. Estou a sós comigo e acompanhada de futuros fantasmas, que ora imagino como possíveis leitores. Vejo você folheando o livro, sem saber se vai gostar ou não. Eu também não sei. Aliás, é espantosa essa mínima diferença que existe, muitas vezes, entre uma opinião favorável ou desfavorável. Já sai muitas vezes de um teatro sem saber se havia gostado de uma espetáculo ou detestado. E é pelo espetáculo que chego ao, ou parto do, primeiro beijo.

Eu fui com a minha mãe assistir ao Hamlet e era muito mocinha, tinha 15 anos. Naquele tempo, as mocinhas de quinze anos eram mocinhas e iam ao teatro com as mães. Foi em 1948, por aí. Se as contas estiverem erradas, tanto faz.

A memória se confude com o pensamento. Penso em Shakespeare, em Hamlet. Vejo na minha frente Sérgio Cardoso dizendo para Maria Fernanda:

—Vai para o convento, Ofélia!

É difícil escrever, porque eu quero contar tudo: os meninos e os fins, e me embolo. Só sei que saí do Hamlet dizendo que queria ser atriz... e que eu era tão inocentemente abobalhada que graças à minha total falta de desconfiômetro fui, no dia seguinte, bater à porta da entrada dos artistas do antigo teatro Phoenix, que hoje seria Fénix, se não tivessem derrubado. A uma lei que protege os teatros no Brasil. Mesmo assim, no Brasil, há algo fora de propósito: certas leis existem, mas não são cumpridas.

Fui ao teatro, de uniforme de saia pregueada e disse para Áureo Nonato, o rapaz que foi atender:

Eu quero fazer teatro.

E fui apresentada a Paschoal Carlos Magno, Sérgio Cardoso e Sérgio Britto. Acharam gozado aquela garotinha imbecilizada ir assim, sem mais nem menos.

Paschoal era um doido iluminado e disse:

—Eu sou um doido iluminado e vejo para você um futuro de glória.

Eu concordei imediatamente. Sérgio Cardoso ainda falou:

—Que belo timbre de voz!

Sérgio Britto perguntou:

—Que idade você tem?
—Quinze anos.

Por causa da idade, fui escolhida para ser Julieta Capuleto.
Ninguém entendeu nada na minha família, mas foi assim.

—Eu quero ser atriz!

Houve um curso chamado Seminário de Arte Dramática. Houve ensaios Nario Lanza seria o Romeu.

Escrever tem disso: eu estava no passado o telefone tocou e cortou o fio do que eu estava contando. Quem era? Não importa. O que importa é que eu era ensaiada por Esther Leão e não acertava a cena do beijo. Eu nunca havia sido beijada e, na hora do maior romance eu parecia um aspargo: dura e verde, insossa e gelada.

Foi ai que um rapaz bonitão, estudante de direito, começou a me acompanhar para a casa, depois dos ensaios. Mamãe nem sempre me buscava, pois ensaiávamos cedo. Um dia, ali, na praça dos Jacarandás, em frente ao número 15, ele me beijou.

Levei um susto. Não sabia que beijo era assim. Reclamei, briguei, chorei. Aí ele me respondeu para se desculpar:

—Sylvia, me perdoa: foi Dona Esther quem mandou.

Inútil contar que o namoro acabou. Chorei horas a fio o meu primeiro beijo.

O estranho é que as coisas tristes, quando o tempo passa, tornam-se gozadas. As coisas quando passam, fazem chorar deve ser para equilibrar o universo, tal como as estrelas.

Sylvia Orthof.

Um comentário:

  1. Há uma passagem no texto em que as informações são muito precisas.Qual e ela ?Como se justifica tal precisão?

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