segunda-feira, 4 de abril de 2011

Professores para quê?

Em outras palavras, é para um homem uma grande sorte ter encontrado um mestre. Mas é um perigo maior continuar discípulo, isto é, continuar para sempre preso na armadilha do ensinamento recebido. O discípulo encontra-se então como que bloqueado em seu desenvolvimento; deu para sempre a sua adesão, fez voto de obediência. Daí em diante, viverá seguro; em troca de sua confiança, goza de todas as seguranças da tutela, mas existe por procuração. Quando se apresenta uma situação imprevista, encontrase brutalmente desprevenido; seu único recurso é pedir conselho ao mestre ou tentar adivinhar o que o outro teria feito em seu lugar, folheando suas obras completas e o índice analítico. O discípulo de estrita observância apresenta assim o quadro clínico do parasitismo intelectual. Reúne-se facilmente em grupos, em capelas; entre discípulos, as pessoas se reconhecem pelo fato de estarem de acordo sobre uma invocação comum. Falam a mesma linguagem, partilham as mesmas recordações; tem um assunto de conversação inesgotável e também um programa comum de trabalho que consiste em reeditar os escritos do mestre ou em publicar os inéditos. (...) Medimos por aqui a sabedoria de Sócrates, de quem ignoramos que doutrina ensinou. Aos seus discípulos, contentava-se em transmitir uma exigência e uma preocupação; não de respostas, mas de uma interrogação e de um questionamento. O melhor aluno de Platão é Aristóteles, que abandona os caminhos do platonismo. Mas Aristóteles apresenta uma doutrina tão perfeita que não deixa nada a esperar depois dele. (...) Assim, pois, a condição de discípulo pode levar a tudo, com a condição de sair dela, Para além de todas as lições ensinadas e aprendidas, o melhor ensino que o mestre pode dar é o ensino da própria qualidade de mestre. Mas é preciso ser um mestre excepcionalmente clarividente para se resignar a este ensinamento. A eterna tentação do mestre é ensinar a si próprio, induzindo assim em erro quanto à verdade e quanto a si próprio. O verdadeiro mestre se reconhece como servidor e discípulo da verdade; convida seus alunos a procurála por si mesmos e segundo seus próprios meios. (...) O mestre, inicialmente, deu a palavra ao discípulo. O discípulo tomou a palavra, mas esta palavra era uma palavra emprestada. E, evidentemente, este empréstimo é cômodo para aquele que não tem nada a dizer; a palavra emprestada do mestre substituiu-lhe a personalidade que não possui. É melhor recitar a lição do que ficar sem voz. O mestre nada pode fazer; seu primeiro dever é afirmar a sua própria autenticidade. Mas o dever de quem é mestre é também ajudar a autenticidade de outrem a tomar consciência de si própria. O socrático parteiro dos espíritos não deve reduzir à escravidão os filhos que ajudou a vir ao mundo. O outro momento decisivo será aquele em que o discípulo desliga-se do mestre para prosseguir seu próprio caminho. Depois da amizade espiritual, da dedicação e da devoção, chega o momento do afastamento e da ruptura. De repente, por uma súbita revelação análoga àquela do encontro, mas em sentido inverso, ou por um lento caminhar, o discípulo descobre que o mestre não era toda a verdade; não tinha visto tudo. O seu dever então é de tomar distância e prosseguir só.

Professores para quê? Para uma pedagogia da pedagogia
Georges Gusdorf, Editora Martins Fontes

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