segunda-feira, 18 de abril de 2011

A didática tem de ser envolvente

Para melhor educar, o professor deve aproximar-se do universo do aluno

Por Gabriel Chalita

O que está acontecendo com a escola hoje? Pode parecer estranho, mas, para responder, vamos ver o que ocorreu com ela há mais de 2 000 anos. Sócrates, um gênio da história do pensamento, resolveu inventar um método diferente de ensinar – partiu do conceito de que cada um tem o conhecimento dentro de si e que o mestre é tão-somente um instigador desse conhecimento. Trata-se de fazer o parto das idéias. Como a velha parteira ou o novo médico fazem. Sem forçar. Pacientemente.

Sócrates ainda está na moda, posto que a educação continua um processo de gestação, nutrido pelo conhecimento, consciência crítica e liberdade de escolha. Os desafios de hoje, no entanto, são imensos. Os mestres deste século 21 encontram gigantescas dificuldades para educar, pois os adolescentes, cada um a seu modo, desfilam comportamentos – às vezes inconvenientes – próprios do processo de crescimento. Alguns professores apenas criticam os alunos e cruzam os braços. Outros preferem conhecer suas histórias e ficam fascinados com a genialidade, o carisma, o afeto que descobrem. Porque por trás dessa rebeldia demonstrada na apatia ou no afrontamento estão belíssimos seres em formação.
Ilustração Paladino

O adolescente é um estopim – não é criança nem adulto. Alguns são sufocados por mimos desmedidos, outros estão à deriva, carentes de amor e de atenção. Na escola, o desfile de autoridades, acompanhado de uma boa dose de busca neurótica de disciplina, contribui pouco para que tenham referenciais e encontrem alento nessa fase tumultuada da vida.

Urge que não apenas pais, mas também pedagogos, descubram uma nova forma de lidar com a questão. Em vez de um professor rigoroso do ponto de vista comportamental, talvez seja melhor investir no professor como parceiro mais experiente, entusiasta de conquistas. O olhar de quem enxerga cada jovem individualmente, de quem conhece a história de cada um. Se o conhecimento e os bons modos são fundamentais, a forma de transmiti-los precisa ser sedutora. A sedução começa com a valorização, e a relação frutifica no respeito. Assim, o professor se torna amigo, sem deixar de ser referencial, sem banalizar sua missão de educar.

A didática também pode ser envolvente. Em vez de longas fórmulas para decorar, problemas que envolvam áreas distintas do conhecimento e fontes diversas como livros, internet, colegas. Em vez do mecânico, o lúdico. Em vez do teórico, o prático contido numa música de Chico Buarque de Holanda, num poema de Drummond, em textos de jornais e revistas, em filmes. O aluno, estimulado, se transformará em um pesquisador ávido. São maiores as chances de que venha a ler Machado de Assis, por sentir-se seduzido pelo prazer da leitura, e não porque foi obrigado.

No reverso de toda a agressividade que grassa em tempos hodiernos, que tal o professor discutir com os alunos mitos e lendas sobre amor? – e como adolescente gosta de falar de amor! O professor é o líder capaz de resgatar essa essência extraordinária do adolescente, a grandeza do vôo. Só percebam que adolescente não gosta de conselho, gosta de amizade partilhada, de compreensão, de ternura. Isso não significa que o professor não possa ter um script. Pode. Mas ele deve portar-se como se estivesse no teatro, onde o andamento da peça sofre influência do espectador. Não como no cinema, que despreza a audiência.

Com todo o potencial tecnológico desenvolvido para informar, a solução ainda está no humano. É o mestre que, ao conhecer e buscar compreender o aluno, poderá auxiliá-lo a encontrar meios de ser feliz. E esse tem de ser o maior dos objetivos da educação.

Gabriel Chalita é professor universitário e escritor
Fontr:http://veja.abril.com.br/especiais/jovens/sumario.html#educacao

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