terça-feira, 26 de abril de 2011

Espelho Côncavo

Reservo-me o direito de seguir recuada, caminhar com um tempo de atraso, entornar o leite ao ferver, sujar a casa, andar de meias furadas sem sapatos, ter cabelos brancos.
Reservo-me o direito de rir quando a porca torce o rabo, de sumir de vez em quando, e de me afastar alguns quilômetros espantando um dia longo longe de casa, depois retorno.
Reservo-me o direito de ficar sem trabalho, ao acaso, de parar o espetáculo, de não seguir o figurino, e de dar o primeiro passo para a libertação; depois, convenhamos, o passo seguinte é definitivamente mais difícil e eu...regrido!
Reservo-me o direito, muito embora custoso, de ter dor na coluna, incoerência e enxaqueca, e de me assentar em meditação de manhã e à noite acreditando estar entre os escolhidos e, daí a pouco, muito pouco, já viu cão irado salivando os dentes? A ira é a demência dos sãos e é de cor vermelha.
Passa gente, passa ponte, passa tudo quanto há, só não passa esse cheiro doce de manga, essa vontade de permanecer aqui, de estar sempre aqui, de eu ser sempre assim; só não passa esse verbo ser fantasioso, mentiroso, se presta a tudo e às bocas todas sem medir prejuízos!
Reservo-me o direito de perder o fio da meada nos mais simples entrelaços da vida e de me enganar terrivelmente, quantas vezes, Daniel? Não sei. - Você falou! - (Eu não devia ter falado...)
O fio da meada está aqui mesmo. Bem que eu o busco. Ninguém nunca poderá dizer que dormi enquanto os sábios distribuíam suas riquezas. Nada me interessa mais que o presente, esse estar contínuo, desprevenido, olhando as estrelas ou nem olhando.
Minha casa, meu refúgio, minha prece é deixar tudo, até as pedras sem proveito, e acocorar-me no meu canto. Café quente.
Que posso lhes comntar? Que é fácil, que é belo amanhecer assim não pertinente, não exigente, nada. Até porque nunca achei que sofrimento desnecessário valesse a pena, por isso me permito qualquer que seja o jeito: rapa de tacho, nata de leite, risada e pouquíssimas vezes percebi encanto em meu lamento.
E então ele me perguntou aonde eu ia. Como é que eu sei?
Vento, vento, doce brisa, sopra cá. Desmancha-me pedra por pedra, desejo por desejo. Quero ver o que é que sobra.

Leila Lusmar

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