quinta-feira, 14 de julho de 2011

Oficina

Língua do poder, língua do povo...(?)

A língua

Apesar de constituírem universos teóricos diferentes, quando falarmos de emissor, estamos nos referindo ao falante ; ao receptor, correspondem os termos ouvinte e interlocutor.

A língua pode ser definida como uma manifestação da linguagem, isto é, constitui uma forma de comunicação verbal que se realiza a partir da utilização do conjunto de signos e normas vigentes e comuns aos falantes que deles lançam mão. A comunicação plena, entretanto, não se restringe a essa troca de signos verbais. É necessário que emissor (falante) e receptor (ouvinte, interlocutor) estabeleçam uma relação de entendimento do que está sendo dito; é preciso construir sentidos. E é justamente neste ponto que começamos a refletir sobre o exercício do poder através do uso da língua.

Como se dá esse exercício de poder inicial? Poderíamos considerar que as concepções de poder, contempladas nas definições fornecidas pelo dicionário, sejam as de cunho cognitivo, sejam as de cunho sociopolítico e filosófico, dão uma pista interessante para que possamos responder a essa pergunta.

Imaginemos, por exemplo, uma situação em que falante e ouvinte possuam níveis discursivos heterogêneos, ou seja, o emissor tem com o exercício da língua uma relação intensa e lida com ela sem nenhuma dificuldade, enquanto o destinatário de sua fala se limita a um vocabulário bem menos vasto e exercita sua fala com estruturas limitadas e simples. Não seria absurdo supor que, por sua dificuldade de entendimento de estruturas complexas da língua, esse destinatário se sentisse pouco apto a lidar com a mensagem veiculada pela fala do emissor. Este, por sua vez, teria sobre aquele uma ascendência naturalmente embutida no domínio expresso por sua fala. Nesse sentido, poderíamos dizer que o emissor estaria exercendo algumas das definições de poder, como as que estão selecionadas abaixo:

  • Ter a faculdade de.
  • Ter possibilidade.
  • Ter grande influência ou poder sobre.
  • Autoridade, soberania, império.
  • Domínio, influência, força.
  • Capacidade, aptidão.

O poder

Notamos que, na situação/exemplo citada acima, o emissor estaria inserido nas seis definições selecionadas, exercendo sobre o destinatário um poder implícito e, muitas vezes, imperceptível. Esse emissor tem a faculdade de se expressar desembaraçadamente, o que o coloca numa situação de domínio em relação ao receptor, já que este último não possui nenhum desembaraço em relação ao uso da língua.

Assim, o emissor aumenta suas possibilidades de convencimento e sua capacidade de persuasão, operando uma influência sobre o receptor. O emissor torna-se detentor de uma autoridade somente conferida pela suposta ascendência que ele adquire ao dominar um discurso que o outro não é capaz de contestar.

Francisco Savioli e José Luiz Fiorin são professores de língua portuguesa e têm várias obras publicadas, entre elas o Manual do Candidato, publicado pela fundação Alexandre de Gusmão com vistas à preparação dos candidatos à carreira diplomática.

Se pensarmos um pouco sobre a visão que têm Fiorin e Savioli do ato de comunicação, segundo a qual "comunicar é agir sobre o outro e, por conseguinte, não é só levá-lo a receber e compreender mensagens, mas é fazê-lo aceitar o que é transmitido, crer naquilo que se diz, fazer aquilo que se propõe, [...] comunicar não é fazer saber, mas principalmente fazer crer e fazer fazer", perceberemos que a comunicação verbal é, em grande parte das vezes, um exercício de poder.

Padre Antonio Vieira é um dos mais conhecidos autores do período barroco brasileiro. Português de nascimento, Padre Vieira viveu no Brasil no século XVIII e aqui escreveu vários sermões que o celebrizaram pelo famoso "discurso engenhoso", característico do Barroco.

Os mesmos autores citam um trecho do Sermão da Sexagésima, de autoria do Padre Antônio Vieira, que passamos a reproduzir, para demonstrar esse exercício. Leia o texto:

Será porventura o não fazer fruto hoje da palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos, eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: Saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma cousa é o soldado, e outra cousa o que peleja; uma cousa é o governador, e outra o que governa. Da mesma maneira, uma cousa é o semeador, e outra o que semeia; uma cousa é o pregador, e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o serao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras são as que convertem o mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? É o conceito que de sua vida têm os ouvintes. Antigamente convertia-se o mundo, hoje por que se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiro sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra. As vozes da harpa de Davi lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar, que é falar, faz-se com a boca; o pregar, que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras!

O texto constrói uma imagem emblemática: o pregador, comparado ao semeador, só colhe frutos se suas palavras estiverem amparadas na força das ações. Estas, por sua vez, são resultado de palavras eficazes, palavras que levam não somente à reflexão, mas, principalmente, à ação. Enfim, o autor prega a coerência entre palavras e ações, mas deixa claro que a força da palavra é capaz de gerar ações que mudam o modo de viver das pessoas. Por isso, diz que "de poucas palavras nasceram muitas obras" e termina enfatizando que "palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras!"

Na verdade, a grande oposição presente no texto se dá entre as palavras ditas sem força - ao vento - e aquelas que, sem precisar ser eloquentes, podem gerar grandes mudanças. Essas atingem o coração.

Ora, o sermonista não nos diz senão que a palavra é uma fonte de persuasão, de convencimento, logo, uma forma de poder que um indivíduo pode exercer sobre outros.

  • Quantas vezes você já se sentiu pressionado por um discurso persuasivo, muito além das suas possibilidades de réplica?
  • Quantas vezes essa situação já se repetiu em vários âmbitos de sua vida, inclusive na escola, entre você e o diretor; na sala de aula, entre você e seus alunos?
  • Rememore estes acontecimentos e reflita sobre sua ação - reação diante dos mesmos.

Podemos entender ideologia como falsa consciência. Em outras palavras: como ideias que dominam toda a sociedade, mesmo pertencendo a apenas uma classe - a dominante.

Retornando à análise do texto do Pe. Antônio Vieira, veja que estamos refletindo sobre uma forma de poder: a que "um indivíduo pode exercer sobre outros", através da palavra. Você já deve ter ouvido falar que "Fulano tem o dom da palavra" e também que "quem fala ou escreve corretamente se dá bem na vida". Estas expressões, entre outras tão corriqueiras, encontram-se carregadas de ideologia, é certo. No entanto - e talvez exatamente por isso - encerram o que o cotidiano ainda não destruiu: o poder da palavra existe. O que isto significa, o trecho do Sermão da Sexagésima já nos apontou. Mas teríamos outros exemplos, desta feita reais?

Se fixarmos nosso pensamento, certamente nos lembraremos que, ao longo da História, houve indivíduos que exerceram seu poder sobre os demais através, também, do uso da palavra persuasiva. Quem não se lembra ao estudar, nas aulas de História, sobre Benito Mussolini e Adolph Hitler e de como ambos utilizaram o "poder da palavra" para "encantar" e persuadir, levando os povos italiano e alemão a acreditarem em sua supremacia perante os demais?

Quando refletimos sobre essas "verdades" ficamos, por vezes, como o gato da imagem exposta na capa deste livro: arrepiados, sob uma nuvem de medos e incertezas em relação à nossa própria língua, como se ela fosse uma imensa abóbora que, em um passe de mágica em noite de lua cheia, se voltasse contra nós, ameaçando nossa já tão frágil cidadania... Somos assaltados por pensamentos como, por exemplo: Somente alguns "eleitos" terão nascido com o "dom da palavra"? Somente alguns privilegiados na sociedade serão capazes de "dominar", através da palavra oral ou escrita, a língua que "é de todos nós" ? Se a língua pertence a um povo, por que motivo ela discrimina alguns cidadãos que a utilizam, até mesmo na escola, local onde se vai para "aprender a ler e escrever"?

Nesse sentido, é bom verificarmos o que nos diz Gnerre: Talvez exista uma contradição de base entre a ideologia democrática e a ideologia que é implícita na existência de uma norma linguística.

Segundo os princípios democráticos, nenhuma discriminação dos indivíduos tem razão de ser, com base em critérios de raça, religião, credo político. A única brecha deixada aberta para a discriminação é aquela que se baseia nos critérios da linguagem e da educação. (Gnerre, 1987, p.18)

Como podemos perceber, a língua de um povo é, ao mesmo tempo, sua identidade e sua diferença. Isso, tanto em termos internos quanto externos. Vamos explicar melhor.

A Interferência de outros idiomas

As línguas nacionais identificam um povo, fazem parte de sua cultura. Podemos fazer reparos quanto a isto; porém, de sua natureza como identidade, ningué m tem dúvida.

Ao mesmo tempo, essa mesma língua discrimina as pessoas que a utilizam, seja falando, seja escrevendo: "Como Fulano fala mal !"; "Sicrano escreve muito mal, ninguém entende o que ele quer dizer"... Disto - sua diferença - também ninguém duvida. E essa dinâmica ocorre dentro das sociedades. No entanto, acontece algo semelhante em termos externos. Veja, atentamente, a tira abaixo...





A leitura da tira nos leva a uma série de perguntas: Se nossa língua materna perde cada vez mais espaço para outras línguas, principalmente a inglesa, terá este fato relação com a nossa "inferioridade" socioeconômica? Quando uma loja abre seu espaço com um nome estrangeiro, podemos considerar este fato uma "comunhão linguística", fruto da "solidariedade entre os povos" ou, na realidade, estamos nos aculturando ?

Aproveitando o tema, que está "esquentando" inclusive o Congresso Nacional, leia atentamente a reportagem do Jornal do Brasil, de 4 de fevereiro de 2001, identificando:

  1. a situação (tema) central da reportagem;
  2. as argumentações e contra argumentações presentes no texto;
  3. as alternativas criadas pela sociedade civil organizada para reverter a situação.

Reflita, ainda, sobre a afirmação de Iesa Rodrigues, em artigo dentro da mesma reportagem. Depois, analise-a :

"O inglês é falado por quem compra a moda. E quem compra, dita preço e idioma".

Agora, leia com calma a citação abaixo, retirada de livro de Souza:

No Brasil, a perda de prestígio cultural levou o francês a ser maciçamente substituído pelo inglês nos currículos escolares; ficou patente a progressiva influência cultural e econômica, decorrente do capitalismo internacional e particularmente dos Estados Unidos. A ascensão do inglês, por seu prestígio econômico, tem sido referendada por sistemas escolares de grande número de países latino-americanos, africanos e até mesmo asiáticos. [...] Na venda de seu inglês oficial (tido como "mais puro"), a Inglaterra arrecadou, em 1988, nada menos que 25,3 milhões de libras esterlinas, ensinando-o através de institutos oficiais em vários países do mundo. (Souza, 1990, p.78)

A leitura atenta da citação nos remete a outra série de indagações. Nas escolas, as línguas estrangeiras ensinadas também o são ao sabor dos "ventos econômicos" ? Ensina-se o inglês - e vê-se inglês espalhado por toda a parte deste país - por que esta é uma língua de cultura ou por que é a língua do poder econômico?

As perguntas vão gerando outras angústias maiores: Quem somos nós, falantes da língua portuguesa? Teremos alguma identidade enquanto usuários desta língua? Essa identidade tem poder? Perante "quem"? E a imagem daquele gato, sobre aquela abóbora, renasce em nós...

Mas nem todas as nossas angústias se concentram naquela abóbora. Afinal, no plano simbólico, ela pode virar carruagem a qualquer momento, não é mesmo? Nesse sentido, vale a pena lembrar que A língua de um povo tem poder. No entanto, a língua do poder não é a língua do povo. Da gente simples, que constrói o país; do operário, que trabalha e ganha salário mínimo. Contudo, é a língua de uma determinada classe, ou de grupos pertencentes a essa classe que, através de mecanismos como a argumentação e a persuasão, muitas vezes nos convencem sobre o que "é melhor para nós"...

Você se recorda da música Língua, de Caetano Veloso?

Gosto de sentir a minha lígua roçar

A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesias está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que podeEsta língua?
Incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma ideia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você

e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem

A língua, enquanto sistema normatizado e pertencente a uma classe, é ensinada na escola. O "aprender a ler e a escrever" - tão citado pelo povo quando perguntado sobre por que frequenta essa instituição formal de ensino - possui, assim, características ideológicas.

Vai-se à escola para aprender a "ler e a escrever" a língua que corresponde ao ideário de determinada classe. Como afirma Souza, "...o mais correto é dizer que a língua oficial é geralmente a língua do grupo dominante" (Souza, 1990, p.55)








No entanto, a língua é formada por signos linguísticos que possuem valor sócio-histórico, e que se constróem na interação social. Essa característica, se bem entendida e trabalhada na escola, pode contribuir para que entendamos sua função social a partir de outros parâmetros que não aqueles utilizados até o momento.

E já que estamos falando tanto de escola, por que não entrar porta adentro???

Língua do poder, língua do povo...(?)

  • A concepção de língua culta e o abismo que se constrói entre a língua legitimada desta forma e a língua falada pelo povo.
  • A função social da língua; o poder por ela exercido.

Referências Bibliográficas

GNERRE, Maurízzio. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes, 1987, p. 18

SOUZA, Álvaro José de. Geografia linguística: dominação e liberdade. São Paulo: Contexto, 1990, p. 78 e 55

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