quarta-feira, 7 de março de 2012

"Redescobrindo Feira de Santana"

Reconstituição do meu ser

Ser tão verde vermelho, brava gente!
Currais de gado cheiram as minhas narinas
Sol do sertão-verões quentes
Redondo sol
Redonda lua

Ramos de Graça
Reconstituição do meu ser

Ramos de flamboiants
Vermelhas pétalas que coalhavam o céu e o chão da minha terra
Cor do sol ardente
Minha alma sequiada de saudades
Rio de poças d’água
Kalilândia dos anos 60
Descalças ela e eu
Formas desenhadas explodem do inconsciente de menina
Brilhos do circo Nerinho
Festões de Natais-Armarinho Aurora
Cores reluzentes dos meus sonhos
Enxovais de noivas de Olga da Princesa
Bordados à mão por Helena Caribé

Toalhas de linho marcadas de ilusão...

- Ramos dos fios lacerdinhas
Feira infestada era noite de boca em boca, pele em pele
Praça de matriz enfeitada

Em volta do coreto
Ciranda impregnada de amores
Filarmônica 25 de março
Voltas e mais voltas para procurar o hoje
Onde todos foram?
Impalpáveis aqueles dias.

Bandeirinhas de cores translúcidas que me arrepiavam
Enfeitavam festas de fogos e folguedos...
Convulsões de alegria.
Néons da Rural Wilys de Juca Dias na Praça da Bandeira me alucinavam

Tomara que chova para brincar de barquinho de papel e fazer bonecos de barro
Bairro da Kalilândia forrado de saibro amarelo, caramelo!
Massas, magma de minhas primeiras experiências...
Barro frio e gostoso que me sujava os dedos, as mãos, o corpo...
Me lambuzava de vida... Causa de muitas surras.
Pisava naquele amálgama com vontade de integrar-me a ele,
Ser ele mesmo...
Ser matéria para ser arte.
Fazer arte para ser inteira.
Furar o solo branco com ferro duro,
Desenhando formas geométricas, arriscando ferir o pé,

Desenhando formas geométricas, arriscando ferir o pé,
Para ver o sangue vermelho pintar a terra...

Santa Clara clareou
São Domingos me alumiou
Vai chuva, vem sol,
Enxugar o meu lençol
- Tomara que não chova
Pra brincar de roda, de pula-pula...
Pinto agora com a mesma despretensão com que desenhava o solo de minha infância,
‘Proporcionando emoções sem tédio’ <>
Deixando fluir o meu interior sem pensar em nada
O meu inconsciente foi meu mestre, minha inspiração
Brincando, deixei passear a mão sobre as telas:
Planos redondos e quadrados
Do meio por fim, me veio à tona, a lembrança dos primeiros anos
Consciente estava desenvolvendo pinturas que traduzem o ontem
Volutas desenhadas no meu chão

Chovesse ou não
De toda feliz!


Graça Ramos
 É formada em Artes Plásticas pela UFBA,  mestre em Artes pela Universidade da Pensylvania (EUA), é Doutora pela Escola de Belas Artes da Universidade de Sevilla, autora de publicações artísticas, membro da Academia de Letras de Feira de Santana, professora da UFBA, foi diretora da Escola de Belas Artes da UFBA.
Texto publicado no Livro”Cultura e Artes Plásticas
 em Feira de Santana” em 2003.

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