terça-feira, 22 de maio de 2012

É bom saber



Relações raciais no cotidiano escolar: implicações para a subjetividade e a afetividade

Por Eliane dos Santos Cavalleiro

Como um passo decisivo rumo à promoção do respeito e da igualdade no ambiente escolar, a reflexão sobre a dinâmica das relações raciais vivenciadas nesse espaço não pode mais ser protelada, em especial por todos(as) aqueles(as) que se consideram ou ocupam o posto de educador(a). Uma vez reconhecida a presença do racismo, do preconceito e da discriminação racial na sociedade, temos de atentar para a reprodução desses problemas no cotidiano escolar. De fato, as experiências em sala de aula não estão alheias ao racismo e seus derivados; conectam-se às de muitos outros espaços, passando até mesmo por nossas residências, chegando aos nossos filhos, com ou sem a nossa permissão.
Há algum tempo, estudos e pesquisas apontam a presença de racismo e de discriminação racial em várias instituições socializadoras, como a escola, os meios de comunicação, a religião, o trabalho e, até mesmo, a família. Recentemente, os sites da internet tornaram-se mais um veículo para a estimulação do ódio racial.
No caso particular do sistema de ensino, tendo em vista que o racismo opera de maneira tanto consciente quanto inconsciente, as pesquisas acadêmicas indicam os profissionais da educação como agentes reprodutores da discriminação e do racismo no espaço escolar, desde aqueles que atuam em educação infantil, até mesmo aqueles que atuam em níveis escolares mais elevados. Não por outro motivo, a subjetividade e a afetividade nas relações estabelecidas no cotidiano escolar são aspectos a serem levados em conta quando da análise das desigualdades no desempenho escolar e das taxas de acesso e permanência entre crianças negras e brancas no cotidiano escolar.
Ao mesmo tempo, será também na escola que a criança aprenderá atitudes em relação ao seu grupo e a outros grupos raciais representativos em sua sociedade, que são sustentados pela família e pela sociedade mais ampla. Com isso, aprenderá de qual grupo racial é integrante, e disso derivará parte de sua identidade social. Nesse caminhar, a criança poderá ou não adquirir preconceitos raciais, pois as idéias preconceituosas presentes na sociedade em relação à raça são transmitidas da mesma maneira que todos os valores sociais: por gestos, palavras, atitudes cotidianas, e, em geral, dos mais velhos para os mais jovens.
Os preconceitos fazem parte de uma tradição cultural que se transmite, por assim dizer, espontaneamente: as crianças adquirem-nos pelo contato com os seus professores, colegas, mestres da escola dominical (religiosa), e sobretudo com seus pais. Entre estes últimos, alguns não querem que suas crianças tenham preconceitos; outros, pelo contrário, inculcam-nos nelas, porque eles próprios foram educados na convicção de que é conveniente e natural tê-los. Eles o fazem agindo de uma certa maneira, exprimindo certas aversões, opondo-se a certas relações, formulando certos comentários, deixando entender que é ridículo ou vergonhoso fazer isto ou aquilo, etc. Acontece mesmo que os adultos fazem troça das crianças para melhor lhes despertar certos preconceitos. Mas, na maior parte dos casos, os adultos não têm consciência de que inculcam preconceitos nas crianças...
Portanto, devemos atentar para o fato de que a organização de uma sociedade racista conta com mecanismos estruturados de discriminação racial. Esses mecanismos se encontram presentes nos mais diversos fatores que colaboram para a socialização da criança, como enfatizado anteriormente. Ao realizarem a mediação entre criança e sociedade, podem proporcionar-lhes aprendizagens que enfatizam a hierarquia entre os grupos raciais, contribuindo para a propagação de valores, crenças e comportamentos racistas às futuras gerações.
A família, por seu turno, exerce grande influência na transmissão de valores e crenças a respeito dos grupos raciais, de maneira explícita ou implícita. Os familiares, fontes de socialização, reforçam normas e monitoram comportamentos em relação aos grupos. Além do mais, na Igreja, o ensinamento de valores e crenças racistas pode ocorrer de modo direto, pelo impedimento de participação igualitária às pessoas negras ou pertencentes a outros grupos excluídos, ou de maneira indireta, pela percepção, por parte das crianças, de tratamentos diferenciados às pessoas desses grupos, ou ainda, por meio da influência sobre os pais.

http://www.acordacultura.org.br/

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